Enquanto boa parte das pessoas curte o feriado esticado, fiquei pensando se tenho algum problema de TOC ou coisa que o valha. Escrevo isso porque fico muito incomodado quando recebo um texto e ele não vem formatado em Arial 12, espaçamento zero antes e depois, sem espaços entre parágrafos do mesmo estilo e 1,5 entre linhas. Me dei conta disto enquanto editava uns materiais de comunicação interna. Custava seguir o combinado, facilitar a leitura e publicação, além de evitar a perda de tempo de quem vai fazer a etapa seguinte?
Parei, pensei melhor. Não, frescura minha, até gosto de formatar e deixar tudo mais claro, já virou hábito e nem dói. Mas, assim, essa coisa de pensar que tudo é “azar do goleiro”, "o outro que se vire", é a responsável por muitas das coisas ruins que estão por aí. Quer outro exemplo? Fui fazer umas provas na faculdade nas últimas semanas e sempre tem os bonitões que chegam atrasados, depois que os demais já estão concentrados na leitura e resolução das questões. Falam alto com a fiscal, se identificando e pedindo as folhas, andam pela sala à procura do melhor lugar, arrastam classes e cadeiras fazendo o atrito dos pesinhos com o chão produzir aquele sonzinho que te leva para outro lugar, muito distante do problema sobre aspectos filosóficos e sociológicos da educação de que tratava a pergunta. É uma falta de respeito, desprezo pelo outro e ausência de instinto coletivo sem tamanho.
Aí viajei mais um pouquinho e cheguei à barbaridade promovida pelo governo do Estado na noite gelada da quarta-feira, jogando 70 famílias para fora de um prédio abandonado que até o dia anterior não importava. O mesmo governo que “precisa” se livrar de Banrisul, Corsan e outras estruturas, que lá no início do mandato estudava se desfazer de imóveis públicos considerados dispendiosos, subitamente vê importância em um edifício que, não fosse a ação das pessoas que moravam ali até anteontem, continuaria sendo criadouro de ratos no Centro de Porto Alegre. Estariam, os ratos, querendo voltar? Pode ser...
Mas a barbaridade que foi a ação da Brigada Militar, Judiciário e roedores do Piratini já foi retratada e dissecada por muitos camaradas, me atenho aos sentimentos que levam a isso. Como quando compartilho em rede social uma foto de um pai segurando um bebê e algumas palavras de uma deputada e vem um parceirinho questionar o trabalho da parlamentar. Quer dizer, a temperatura daquela noite, as poucas coisas que a família tinha atiradas em uma calçada suja da capital, um pai desesperado sendo levado para um abrigo para passar a noite, sem saber se esta casa poderá servir de teto para ele e a filha na noite seguinte, na próxima semana... Nada disso importa, o que vale é o ego de cada um, na tentativa de ganhar uma discussão de internet com argumentos do tipo “meu deputado tem menos citações que o teu”, “o Grêmio não tem mundial”.
A origem da puta insensibilidade que toma conta da maioria das pessoas nasce naquelas pequenas coisas lá do início. Para quê facilitar a vida do colega, acelerar os preparativos e chegar na hora? De pequeno incômodo em pequeno incômodo causado sem ter reclamação como feedback é que vão se formando monstros como o fascista do Sartori. O que vale é garantir meu direito de entregar tudo como e no tempo que eu quiser, privilegiar minha vida e gostos pessoais, as regalias da minha classe... Os outros? Ah, eles que se lasquem, nem que seja uma criança, de frio, sem escola, sem onde colocar o fogareiro para preparar a comidinha do dia... Quando ele crescer e quiser dar o troco na vida a gente rotula ele de ladrão, marginalzinho, prostituta vagabunda e tranca em uma das novas celas que os “gestores” do RS planejam construir.
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