quarta-feira, 7 de setembro de 2011


CONTARDO CALLIGARIS - Antipolítica

Se os políticos parecem ser todos corruptos é porque nós, na sociedade civil, devemos ser todos honestos



Certa vez, uma mulher me disse que não deixaria de gostar de mim, mesmo se eu perdesse o cabelo, engordasse absurdamente e mudasse de fé ou de lugar de residência. Mas ela deixou claro que, caso eu me tornasse um político, ela se separaria de mim, no ato. Essa mulher é brasileira, mas poderia ter sido italiana. Brasileiros e italianos compartilham, hoje, uma paixão antipolítica. A ideia antipolítica mais difusa é a convicção (recente na Itália e endêmica no Brasil) de que o exercício da política é indissociável da corrupção -com seu cortejo de alianças oportunistas, mentiras etc. Fora a ojeriza moral, a consequência dessa convicção é a seguinte: de repente, o único projeto republicano válido parece ser a luta contra os corruptos. Ou seja, no governo, os apetrechos da política (planos, visões ou competências) são inúteis, apenas precisamos de pessoas honestas.
A antipolítica da corrupção cria uma nova unanimidade. Para o cidadão comum, ela é lisonjeira: se os políticos parecem ser todos corruptos é porque nós, na sociedade civil, devemos ser todos honestos, não é? Para os políticos, denunciar a corrupção de sua própria classe é mais fácil do que conceber e colocar em ato ideias sociais e econômicas inovadoras. Com isso, a antipolítica reconcilia a nação, as classes e os partidos: vivemos enfim numa comunidade de (todos) indignados contra os políticos (todos) corruptos.
Na Itália, o Partido Comunista da época de Berlinguer (inclusive nas regiões que governava) era considerado, mesmo por seus adversários, como uma reserva ética. Os comunistas podiam ser acusados de comer criancinhas, mas ninguém imaginava que, uma vez no poder, eles seriam como os outros. Ora, a partir de 1991, quando o partido se desfez, as siglas nas quais ele confluiu (compostas cada vez mais de políticos profissionais e cada vez menos de militantes) foram partidos como os outros.
O caso do PT, no Brasil, não foi muito diferente. As alianças de governo e sobretudo o mensalão acabaram com a ideia de que o Partido dos Trabalhadores representasse uma reserva ética dentro da política. Conclusão: como quer a antipolítica, políticos são todos iguais e reserva ética só existe na sociedade civil.
Quanto a mim, oscilo: acho que a arte de governar não deveria se resumir num trabalho de polícia, mas será que, hoje, é possível qualquer política sem um saneamento moral prévio?
A corrupção generalizada não é o único argumento da antipolítica. A desconfiança de discursos políticos fanfarrões e abstratos (que, ao longo do século 20, sacrificaram milhões) pede que eles sejam substituídos pelo cuidado com os problemas concretos, numa espécie de ativismo direto, sem projetos globais, sem representação e sem delegação. Aqui também a antipolítica ganha uma simpatia suprapartidária e interclassista.
Acabo de ler um conto de Piero Colaprico, "Arrivano i NAM", publicado pelo "Corriere della Sera", no qual ex-militantes da luta armada dos anos 1970 e 1980, tanto esquerdistas como fascistas de extrema direita, unem-se, hoje, para criar um grupo que organiza linchamentos e punições como no passado, só que contra alvos comuns, que não são mais inimigos ideológicos, mas pessoas que concretamente estragam a convivência civilizada de todos na cidade.
Os NAR, Nuclei Armati Rivoluzionari, são assim substituídos pelos NAM, Nonni Armati per Milano, ou seja, os avós armados para Milão, vigilantes defensores da ordem e da justiça miúdas e concretas.
Concordando com a antipolítica, entre os NAR e os NAM, talvez eu prefira os avós, os NAM. Se hesito um pouco, é porque receio que, à força de cuidar apenas do concreto imediato, a gente acabe perdendo a capacidade de pensar mundos realmente diferentes.
Em suma, não sei interpretar a antipolítica. Talvez ela seja o sinal de uma nova forma de domínio, que nos induz a aceitar nosso "sistema" e pedir apenas gestões mais honestas e mais concretas. Talvez, ao contrário, ela seja uma revolta contra a política tradicional, capaz, a longo prazo, de redefinir nossa visão do que é política.
Questões. A Primavera Árabe me parece ser um evento político no sentido tradicional. Mas os jovens protestatórios do Chile e ainda mais os saqueadores de Londres foram o quê? Antipolíticos?

ccalligari@uol.com.br

terça-feira, 6 de setembro de 2011


SE ESPIRRAR, SAÚDE PREFEITO !



*“.... Onde têm as possibilidades de financiamento, pode ter certeza que tem interesses poderosos aí controlando...”. Cesar Busatto,assessor do Prefeito Fortunatti.Texto em conversa gravada pelo Vice Governador Paulo Feijó.

Dá para imaginar, quais são os interesses poderosos que estão controlando o jogo na sucessão na Prefeitura de Porto Alegre?


Quando o prefeito prioriza “o controle do ponto” em detrimento da “qualidade da saúde” é porque o governo adoeceu de vez e neste sentido é que pairam dúvidas sobre os interesses do governo. Os funcionários públicos são na maioria, o que há de melhor no sistema de saúde de Porto Alegre, a sociedade sabe disso e não é o ponto que vai melhorar o atendimento.


Percebemos um sistema de saúde que sobram problemas. São muitas deficiências, faltam leitos, os equipamentos são ultrapassados e muitos trabalhadores são mal remunerados e estão no limite do seu esforço. É bem como a pessoa traída, que se livra do sofá para se livrar do adultério, serve para inglês ver, mas não soluciona o problema.


O Prefeito de fato deve estar muito confuso: foi sindicalista, fez greve, era do PT, foi vice do Tarso, perdeu as prévias, saiu do PT, foi vice do Fogaça, mas virou prefeito com a vitória do PT. Radicalizou com os sindicalistas, mas busca desesperadamente o apoio do PT, adversário do PMDB aliado da Yeda que odiava todos os sindicalistas. A Yeda, por sua vez, brigou como seu vice, que gravou o Cesar Bussato, que é assessor do Fortunati e que mandou cortar o ponto dos funcionários.  Uma salada de letrinhas que em nada ajuda a resolver os problemas da saúde.


Na verdade, bem intencionado, o prefeito resolveu mesmo foi antecipar a corrida pela Prefeitura e não quer perder tempo. Como patrão ele já aprendeu como se divide a categoria, e como candidato à reeleição e bem assessorado, sabe das possibilidades de onde buscar o financiamento da campanha.


Foi direto ao ponto e joga para torcida, acerta com os médicos e ataca as outras categorias da saúde. Faz do ponto dos servidores, menos dos médicos, o seu cavalo de batalha. E trata como se isso tudo fosse de fato, o ponto principal para resolver os problemas da saúde pública de Porto Alegre.


O que resta são os ditos populares: “Dê ao Cesar o que é de Cesar” e para dizer que não falei em poesia, encerro com o nosso querido Mario Quintana, que tinha uma baita saúde: Estes que hoje atravancam meu caminho, eles passarão e eu passarinho! Se espirrar, saúde Prefeito! 


Paulo Mendes