sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Conectado com o Veraneio





 VERANEANDO  NA VELHA CLASSE MÉDIA.

No tempo de criança, longe da escola, o momento para brincadeiras sem hora de terminar. Na adolescência, festas intermináveis, muito sol e divertidos banhos. Na juventude, casas alugadas com os amigos, muita fome, cerveja, sono e namoros mais sérios. Na fase adulta, churrascos,restaurantes, filhos na praia e o vai e vem, o traz e leva pra todos os lados.
Para um ser de classe média, gaucho e brasileiro, e, de estatura mediana o veraneio tem tudo a ver com a praia. O momento de trocar a rotina da cidade pela rotina da praia. Trocar os ares,reeencontar a simplicidade, solidariedade da vizinhança, da conversa fiada, das caminhadas noturnas, das brincadeiras de criança, da bicicleta, da pescaria, do chimarrão e das praças. Um outro tempo, diferente daquele do dia a dia de quem mora, estuda e trabalha em cidades que não são praias.
Um tempo de descanso e de convivência com a tua família e a dos outros. Um tempo sem horários rígidos, boas leituras, caminhadas e de grandes descobertas. Veraneio bom termina com livros lidos e/ou iniciados, pele queimada do sol, uns kilos a mais, cabelos compridos e rebeldes, sola do pé cascuda, alergia a calça comprida e sapato, muitas histórias replicadas e uns trocados a mais no negativo do banco.
Mas hoje parece que as coisas estão mais esquisitas o tempo é mais rápido, circulamos mais de carros, enfrentamos filas e congestionamentos com normalidade, as portas das casas estão sempre fechadas, gradeadas, edificadas, ruas asfaltadas, pessoas conectadas em redes, segurança privada, assaltos, energéticos com vodga,funk,sertaneja e pagode, poucos vizinhos afetivamente próximos e todos permanentemente estimulados ao consumo de tudo.
As oportunidades do veraneio tranformoram o balneário em produto retirando o charme da vida tranquila, do silêncio, da vida simples, da convivência que o diferenciava do urbano, e assim a cidade foi consumindo o balneário.
Hoje, o conceito de conforto associado ao de consumo, o de ostentação ao de bem sucedido e o da multidão ao sucesso do empreendimento socializaram o modo de vida consumista.
Parece que o tempo de descanso, da quebra da rotina, da preguiça faz parte do passado de uma estória. Um tempo que adormeceu em algum canto qualquer em terrenos baldios que já não existem mais.
Somos cada vez mais produtos de consumo de vida e cada vez mais somos mercadorias em diferentes lugares, o mundo está cada vez menor e nós cada vez mais iguais.

Paulo Mendes Filho
Curioso

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