A pobreza da riqueza no rural gaúcho.
"Não se deve olhar o progresso de uma economia verificando o aumento da riqueza dos que já são ricos, mas na diminuição da pobreza daqueles que são muito pobres".
Amartya Sen
Ter uma boa casa, no campo e/ou na cidade, com todo o conforto, que se traduz em bons equipamentos eletrônicos.
Possibilitar bom estudo para os filhos em escolas onde os professores são bem remunerados.
Produzir de forma mecanizada com equipamentos modernos, tratores e colheitadeiras. Usar os melhores insumos agrícolas, as sementes transgênicas mais resistentes e os venenos de última geração.
Ter empregados assalariados e explorar os meeiros, pagar pouco e assinar carteira só quando necessário.
Ter um carro novo na garagem de preferência uma camionete quatro por quatro.
Se você nasceu pobre, mas bem pobre, e ficou rico com a agricultura têm mais valor, será visto como alguém que venceu na vida, não ficou prá trás.
O conceito de pobre, todo mundo sabe, é contrário disso tudo, mas se for negro, índio, quilombolas, assentado da Reforma Agrária e sem terra será visto como o mais pobre dos pobres.
Ao observamos o rural mais atentamente percebemos que a pobreza existe colada na riqueza. Onde estão os mais ricos são onde os pobres sobrevivem. Se aprofundar mais um pouco podemos identificar no sistema produtivo uma estreita relação entre o agronegócio e a miséria. Onde o Agronegócio está mais espalhado, alcançou mais sucesso, é exatamente aonde a miséria se concentrou mais.
Nas favelas de médias cidades ou nos corredores e fundões da zona rural é fácil perceber os miseráveis do campo, basta olhar onde estão os ricos, os pobres estão no entorno deles e esta é a grande pobreza da riqueza que foi construída no meio rural. Ou seja, uma riqueza muito pobre de valores.
Para ilustrar estas observações, exemplos de três cidades gaúchas, de culturas diferentes, regiões distintas e de produção diferenciadas, mas igualadas na miséria.
Na cultura do fumo os maiores produtores ainda são os pequenos agricultores, e o nível de mecanização é baixo e a indústria se faz muito presente de forma integrada. Os donos da terra são pequenos proprietários que contratam plantadores autônomos sem carteira assinada e com estes dividem a sua pobreza, Este é o caso, por exemplo, de Herveira, uma cidade no Vale do Taquari, na região Central, 100% rural, onde todos os agricultores produzem fumo e o pior, uma boa parte realizada por meeiros. Agricultores pobres que perderam suas terras e que estão dispostos a trabalhar em terras de agricultores também pobres por conta, muitas vezes, de dívidas contraídas na budega do patrão. De todas as cidades do Vale é a pior renda. São pobres contratando os mais pobres. Vivem da pobreza para a extrema pobreza na sua grande maioria. Para a indústria de fumo interessa o produto. Com o preço controlado pelo mercado internacional o lucro aparece na exploração da mão de obra. É da mais valia que vem o lucro de muitos agricultores consolidados no agronegócio da indústria de cigarro. Esta realidade se aproxima do que acontece na parte alta da Centro Sul.
No arroz, normalmente os parceiros são financiados pelo dono da terra e plantam em sociedade, são semelhantes aos meeiros. Pagam pela terra, água e muitas vezes pagam a comida e os insumos, acertam tudo no final e ficam na maioria das vezes no vermelho. Em Arambaré, na região Centro Sul, próximo da Lagoa dos Patos, no distrito de Santa Rita, entre grandes fazendas trabalham muitos " parceiros" que plantam arroz para grandes produtores industriais, usam seus talões de produtores e são financiados, muitos, pelo dono da terra. No entorno das imensas e ricas lavouras de arroz, uma grande favela rural, com o esgoto a céu aberto, as doenças e a miséria. Da dedicação dos parceiros é possível plantar, com menor risco, áreas enormes de arroz. Estes parceiros contratam empregados temporários para o plantio e colheita, pobres contratando os mais pobres. As grandes lavouras são divididas em pequenas lavouras onde cada parceiro tem meta a ser cumprida e responsabilidades com o resultado. Uma concorrência que gera endividamentos e frustrações. Quanto maior o rendimento mais benefícios recebe do dono da terra. O máximo que pode chegar é o salário de um bom capataz. Esta realidade é a mesma de Pelotas para Santa Vitória e em outras partes da Metade Sul.
A soja está em um ótimo momento se espalhando rapidamente. Recentemente foi apresentado na Fundação de Economia e Estatística ( FEE) um ótimo trabalho intitulado "Pobreza e exclusão nos territórios do agronegócio" proferida pela Profª Cristiane Campos da UFSM- Palmeira das Missões (CESNORS). Foi analisado o caso da soja na cidade de Cruz Alta, uma média cidade no Noroeste do Estado. A pesquisa aplicada definiu que a mão de obra no agronegócio da soja é do sexo masculino, formal, temporária e precária. Esta mão de obra vive na periferia em favelas e são bem pobres. As mulheres são excluídas do mercado de trabalho por se tratar de um serviço pesado, ou seja, coisa de homem macho. No caso da soja o complexo industrial não é formalmente integrador como o do fumo, mas é fortemente globalizado. As grandes indústrias internacionais ditam as regras do mercado, vendem os insumos e as máquinas e algumas ainda são produtoras. Grandes, médios e pequenos monopolizam o plantio e oligopolizam a distribuição. Dessa forma existe permanentemente uma pressão por mais terras. Todo mundo quer plantar soja em todo o lugar. A soja tomou conta dos jardins e do pomar em boa parte da metade norte do Estado. No momento o circuito internacional é vantajoso tal como acontecia com o fumo anos atrás, boa parte do dinheiro é gasto junto ao agronegócio, comprando mais máquinas e mais insumos.
Nestes três exemplos é possível identificar a mesma coisa. Um sistema produtivo que acumula e concentra riqueza para poucos através da exploração da miséria de muitas pessoas. Às vezes vendendo sua força de trabalho por salários precários, outros por exploração de parcerias que escamoteiam obrigações trabalhistas e a pior situação, a exploração dos meeiros que vivem próximos da escravidão. Uns moradores de favelas, outros em distritos urbanizados em condições precárias e outros em galpões.
Por tudo isso, pensar na erradicação da pobreza sem entender a formação da riqueza e o mesmo que se jogar ao mar acreditando que possam existir tubarões vegetarianos, por sorte o Brasil e o Rio Grande do Sul abrem espaços para estas reflexões, que bem entendidas, modificarão o cenário de atraso social, colocando, ai sim, o Brasil no eixo do Desenvolvimento.
Paulo Mendes
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